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OJERIZA

Outros perguntam as razões de os seus cães serem criticados, acusados
de terem nervos ou temperamento fracos, apesar de haverem atacado
"energicamente" durante uma prova.

O tema é apaixonante e, para nós, absolutamente prioritário. Incluído
entre as raças de "Guarda e Utilidade", o Fila deve "guardar" e ser
"útil". Sem esses predicados, vale tanto quanto uma geladeira que não
gela; ou um rádio que não toca. Ou seja, é apenas um peso oneroso,
como tudo quanto é inútil.

É difícil, mas tentaremos definir, liminarmente, "caráter". É um
complexo de qualidades, de modos de ser, inerentes à raça, entre os
quais identificamos: índole, capacidade afetiva, capacidade volitiva,
estabilidade, firmeza, feitio moral, psiquismo, etc...

"Temperamento" pode ser definido como o modo do indivíduo reagir a um
estimulo externo. É outro conjunto, composto por coragem, destemor e
até temeridade, agressividade, instinto de defesa, de proteção. Embora
acionado por estímulos externos, sua manifestação é orientada também
pela afeição, pela amizade, como causas determinantes do dever, da
dedicação, do sacrifício.

"Sistema nervoso" é algo físico, independe da vontade; e determina e
regula a emocionalidade. Repito: estou apenas tentando definir algo
subjetivo, ideal. Como tudo, nesse terreno, é difícil, complexo,
sofisticado.

Talvez exemplos esclareçam mais: um Chihuahua ataca um Fila, que se
afasta dignamente, sequer roncando. Tem bom caráter, não se prevalece
de sua força, mostra boa índole. Uma onça devora os filhotes de uma
Fila. A cadela a persegue, por dezenas de quilômetros, sem alimento,
sem descanso, exibindo firmeza, pertinácia, determinação. Este, seu
caráter. Fosse uma fraca, ficaria choramingando.

Ele adora o dono, logo o defende. Simulamos uma agressão ao dono,
utilizando vara ou apenas gestos. Ele reage, revida, defendendo quem
ele ama e por quem sente afeição. Quanto maior sua estima, mais
enérgico o revide. Este, seu temperamento.

Levado para um lugar estranho – o recinto de uma exposição – ameaçado
por outros cães, gente que corre, gente que grita, etc..., tudo isso o
emociona, sente-se em perigo e vê seu dono querido também ameaçado,
principalmente se este também é nervoso e lhe transmite esse
nervosismo. Um estampido funciona como a última gota. É o teste do seu
sistema nervoso.

Não há fronteiras nítidas entre os três: um influi no outro. Um bom
caráter determina maior capacidade de afeição, temperamento mais
forte, revide mais violento, etc... Um sistema nervoso hiper-sensível
impede manifestações de um temperamento razoável, conduzindo até à
covardia.

Numa exposição, os rápidos momentos de exame dos cães não permitem
percepção completa de sua mente e de seu psiquismo. Por isso a
observação começa desde a entrada na pista. Os de bom sistema nervoso
mostram segurança, autoconfiança. Seu olhar revela determinação,
valentia, controle, serenidade. A cauda confirma esse estado de
espírito. O avanço num expositor, ou num cão, que se aproximaram
demais, mostra bom temperamento. Já está defendendo o dono e a si
mesmo.

Olhar apreensivo, orelhas para trás, cauda baixa, ou mesmo entre as
pernas, recusa em voltar a garupa para o cão que vem atrás, denunciam
medo, sistema nervoso fraco.

O relacionamento com o apresentante fornece preciosas indicações. O
cão de bons nervos e temperamento vai à frente do apresentante, que se
esforça para contê-lo. O medroso segue o apresentante, vai puxado,
precisa ser animado, estimulado, para acompanhá-lo.

Uma vez todos na pista, o cão bom despreza os outros cães...desde que
se mantenham à distância. Procura agredir as pessoas que se aproximem
demais.

O juiz sagaz coloca-se no centro da pista e, com voz alta e gestos
largos, pede aos expositores que façam um círculo em movimento.
Objetivo: chamar a atenção dos cães e, também, começar a examiná-los.

Os bons de temperamento não mais desviam os olhos do juiz. Seu olhar é
firme, sereno, altivo, denuncia sua vontade de vir e medir forças com
esse indivíduo que, para ele, cão, já se destacou dos demais, nesse
recinto onde ele desconfia de todos. E é o que faria se fosse solto.

Os de nervos e temperamento fracos começam a puxar o apresentante para
fora do círculo. Seus olhos, orelhas e cauda continuam confessando seu
desejo maior: fugir dali, daquele ambiente tão ameaçador. E é o que
fariam, se soltos.

Alguns enganam. Rosnam, latem, mas sempre...contra os outros cães.
Temendo-os, procuram amedrontá-los, ameaçando-os. Com esse
procedimento desejam evitar que se aproximem e o agridam. São, mal
comparando, como aqueles pseudo-valentões que, depois da briga
apartada, ameaçam, defendem e vociferam os clássicos chavões: "me
larga, me deixa, eu mato, eu esfolo, etc...".

Nas brigas de cães Tosa, no Japão, o que rosnar, antes de iniciada a
peleja, perde pontos, pois mostrou temer o adversário e, por isso,
procurou amedrontá-lo...para impedir sua aproximação.

Esse procedimento é mais comum nas cadelas.

Se o juiz demorar o julgamento individual, os bons sentam ,
calmamente, e até cochilam, tal sua auto-confiança. Sua atitude
significa: "Deixem-me descansar um pouco. Se vier algum, ou
alguém...eu traço".

O sistema nervoso é testado com um barulho súbito e inusitado.
Geralmente utiliza-se um revólver de brinquedo, de espoleta. Pela
observação inicial, o juiz já sabe, mais ou menos, quais vão sentir
emoção tão grande a ponto de se descontrolarem.

Para facilitar a compreensão, imaginem ser o sistema nervoso algo
vertical, ou ereto, como um bastão. Imaginem que a emoção faz esse
bastão vibrar, de baixo para cima. Imaginem que determinado ponto não
pode ser atingido pela vibração, sob pena de pânico, ou descontrole
total. Esse ponto, em medicina, chama-se "limiar".

Aqueles cães que se descontrolam, em puro pânico nervoso, por um
simples estampido de um revólver de brinquedo, têm limiar baixo.
Evidentemente, como guardas ou cães de utilidade, são inteiramente
inúteis. Alguns chegam a urinar, o que realmente é demais, diante de
um simples traque de brinquedo.

Sendo o limiar algo físico, trata-se, evidentemente, de uma
deficiência certamente transmissível. Portanto, cães de limiar baixo
não devem ser utilizados na reprodução, salvo casos especialíssimos,
para a obtenção de alguma característica por ele possuída, difícil de
encontrar em outros. Mas, mesmo assim, com orientação técnica e grande
cautela.

O temperamento é testado pelo ataque com uma vara, ou qualquer objeto.
Objetiva fazer crer, ao cão, que desejamos agredir seu dono e ele
próprio também.

Um cão de bom temperamento reage imediatamente, revidando. Afinal, a
defesa do dono é seu dever.

Os de bom temperamento avançam até onde a guia permite, saltando em
diagonal para atingir o agressor. Chegam a ficar sobre os pés
traseiros, virtualmente de pé.

Os menos bons avançam, mantendo-se, porém, com os quatro pés no chão.
Não saltam em diagonal. Morderiam o agressor dos joelhos para baixo,
se o atingissem. Mas exporiam o crânio, nuca e coluna às pancadas do
agressor.

Os inferiores ficam ao lado do dono, sapateando e latindo...mas não avançam.

Finalmente, há os adestrados. O próprio dono os denuncia, dando-lhes
os comandos, mandando-os atacar e incentivando-os. Alguns donos chegam
a fingir correr em direção ao agressor, para ver se o cão, animado
pelo exemplo, finalmente arremete.

Os cães também denunciam o adestramento: avançam até o fim da guia,
latindo, e depois voltam para o dono, de cauda abanando, felizes, em
busca do prêmio costumeiro: um afago, alguns carinhos. Aí o dono lhes
dá novamente o comando e, novamente, eles correm até o fim da guia,
para retornarem buscando novo afago.

Alguns chegam a dar as costas ao agressor, pedindo o prêmio ao dono.
Imaginem se a agressão fosse verdadeira!

Quando o Fila é de bom temperamento, seu dono nem lembra de mandar
adestrá-lo. O primeiro a ser mordido seria o instrutor. O dono só tem
a iniciativa de providenciar-lhe umas aulas após notá-lo de
temperamento fraco. Então paga para alguém ensinar o cão a fingir de
bravo. Realmente o cão aprende a fingir, mas bravo, intimamente
valente, ele jamais será, pois não está em sua índole, em seu
temperamento, reagir com violência.

O cão adestrado procura morder a vara, e não o agressor. Teste
definitivo: entregar-lhe a vara; ele a morderá, ou procurará
quebrá-la. Alguns chegam a levá-la para o dono, felizes, realizados...
Todos esquecem o agressor.

Os de bom temperamento nem olham a vara que lhe atiraram aos pés,
prosseguem tentando alcançar o agressor. E, mesmo depois do
julgamento, já fora da pista, já amarrado a uma árvore à espera do
final da exposição, o bom cão ainda fica olhando o juiz, ou seja, o
agressor, acompanhando-o, na esperança de ter uma chancezinha de
experimentar-lhe as carnes.

Como todo fator adquirido, o adestramento não é transmissível. O cão é
adestrado, mas seus genes, suas células germinativas, seus óvulos,
esses jamais serão adestrados. O cão finge de bravo, representa
ensinamentos, mas seus filhos nascerão de nervos tão fracos como os do
pai, ou da mãe.

Única solução: corrigir essa falha na geração seguinte, através de
acasalamentos planejados, quando, por ser aquele exemplar portador de
muitas outras qualidades, convier fazê-lo reproduzir. Todavia, se o
que ele tem a dar possa ser obtido em outra fonte, o melhor é apenas
deixá-lo viver feliz até seus últimos dias. Exemplifico: suponham uma
fêmea, de excelente estrutura, ótimo caráter, magnífico temperamento,
mas de nervos fracos. Acasalando-a com um macho de nervos
irreprocháveis, na tentativa de obter a estrutura materna e os nervos
paternos, o fato fica perfeitamente justificável.

Exemplifiquei com uma fêmea, pois é mais comum serem os exemplares de
limiar baixo desse sexo. Todavia, se descender de cães de bons nervos,
quase certamente não prejudicará a participação do cônjuge de bons
nervos; ao contrário, seus genes colaborarão com os do macho. Seu caso
pode ser apenas hormonal. Já um macho de nervos fracos representa
defeito muito grave, pois não tem a amenizá-lo a sensibilidade
feminina.

Quando se testa o temperamento, procura-se posição que permita ao sol
incidir sobre os olhos do cão. Os de temperamento forte ficam de tal
modo enraivecidos contra quem ousou ameaçar seu dono, que seu sistema
nervoso vago-simpático não mais comanda certas ações involuntárias.
Uma delas é a do diafragma da pupila, que deve fechá-la ou abri-la
conforme a quantidade de luz. Incidindo o sol nos olhos do cão, sua
pupila deveria fechar, mas, descontrolado, o vago-simpático não mais a
fecha; abandona-a, deixa-a abrir em sua totalidade. Vê-se, então, a
pupila imensamente dilatada, permitindo a entrada do sol até o fundo
do olho, onde a pigmentação é feita pelo gene cromopoiético,
utilizando elementos fornecidos principalmente pela medula espinhal
(nervo tronco). Se o nervo tronco falhou, não fornecendo elementos
pigmentadores, então todo o sistema nervoso, ou seja, os nervos
secundários, também estarão prejudicados.

Quando a pigmentação é boa, pode-se concluir que a medula funcionou
bem; logo, todos os ramais nervosos também funcionam bem. Pigmentado,
o fundo do olho reflete a luz do sol, em reflexos verdes ou azuis. O
juiz facilmente constata essa cor nos reflexos que vêm do fundo do
olho. Se tiver juízo não chegará perto desse cão que, se o alcançar, o
morderá deveras.

Todavia, se a pupila fechar, isto significa que o cão nada sente
quando seu dono é agredido ou, pelo menos, ameaçado. Péssimos caráter
e temperamento.

Em alguns casos a pupila dilata, ou seja, ocorre o descontrole do
vago-simpático, mas por medo, por pânico. No fundo do olho, não
havendo pigmentação, os reflexos provocados pelo sol serão vermelhos
ou amarelos, por refletirem a cor das veias capilares do fundo do
olho, ou seja, do sangue que nelas circula. Não há pigmento, o nervo
tronco não funcionou, todos os ramais nervosos são prejudicados. O
juiz assim pode estar certo de ter esse cão apenas medo, o que será
confirmado pelo restante do seu comportamento.Se o juiz avançar, ele
recuará, até esconder-se atrás do dono.

Como constatam os leitores, muitas vezes justamente o ataque de um cão
é que lhe denuncia a fraqueza de temperamento. Por isso, embora
atacando, o faz de tal maneira que autoriza o juiz a fazer constar, da
súmula de julgamento, o defeito de temperamento fraco.

Repito, já agora fazendo um apelo aos criadores: não usem machos de
nervos fracos. É um defeito transmissível. Só usem fêmeas, em casos
especialíssimos, e assistidos por um técnico. Não aumentem o número
dos medrosos.

Não mandem adestrar seus cães para atacar. Se não herdaram
temperamento corajoso, destemido, de guarda, não enganem a si
próprios, ensinando-os a ludibriá-los. Num momento de real
necessidade, seu cão adestrado, em vez de defendê-lo pode saltar no
seu colo, pedindo sua proteção ou, então, fugir para o fundo do
quintal, deixando você sozinho a enfrentar o malfeitor. Criem
verdadeiros amigos e guardas, e ajudem-nos a reerguer a raça Fila.


Antonio Roberto Sene (canil Sena Sene)

 
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